Especialistas dizem que Pará perdeu a guerra da Segurança

Especialistas dizem que Pará perdeu a guerra da Segurança
abril 11 14:34 2018

O Pará definitivamente perdeu a batalha contra a violência. O Estado não consegue implementar políticas públicas consistentes para fazer o real enfrentamento à difícil situação da segurança pública, que vem deixando um rastro de mortes nos últimos anos e coloca o Pará como um dos campeões da violência em todo o país. Essa é a opinião de especialistas em segurança pública ouvidos pelo DIÁRIO.

Uma das raízes do problema segundo o geógrafo Aiala Colares Couto, doutor em Ciências do Desenvolvimento pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea) da UFPA, é que o Estado sucumbiu ao combate ao tráfico de drogas e armas que tomou conta da região metropolitana. “O resultado é que a bandidagem está equipada e não tem receio de ir para o enfrentamento direto com a polícia, que não é respeitada pelos bandidos.”

POLÍTICAS PÚBLICAS

A situação também perpassa pela falta de políticas públicas de inclusão social nas regiões vulneráveis e periféricas das cidades. “Os bolsões de miséria que se formam nesses locais são favoráveis para o recrutamento de jovens e adolescentes para a criminalidade, sobretudo para o tráfico de drogas”, detalha. Para Aiala, não há uma política de segurança pública no Pará, englobando um conjunto de ações e investimentos estratégicos em diversas áreas “capazes de conter essa violência e reduzir a criminalidade”.

Ele lembra que facções criminosas de outros Estados e as surgidas aqui já dominam os presídios no Estado. “Os presídios possuem conexões fortes com a criminalidade nas ruas e, das casas penais, comandam o tráfico e drogas e assassinatos através dos Comandos Vermelho, do Norte e PCC. Tentativas de resgate como as que ocorreram hoje (ontem) são um exemplo claro desse domínio, que desafia o Estado a toda hora”, coloca o especialista, que também é professor e pesquisador da Uepa e do Observatório de Estudos em Defesa da Juventude Negra (OBEJ).

O resultado dessa falta de presença do Estado no setor é a explosão de assassinados na capital e no campo, rebeliões. “A população, por seu lado, fica cada vez mais acuada e não se sente representada pela segurança pública fornecida pelo Estado. E a criminalidade toma conta numa ação contra-hegemônica em relação ao Estado, por isso tantos policiais são mortos aqui”, observa o especialista.

ESTADO RESPONDE COM PIROTECNIA, AFIRMA ADVOGADO

Henrique Sauma, advogado e especialista em Segurança Pública observa que as mortes recorrentes e em grande quantidade de pessoas no Estado estão diretamente ligadas à morte de policiais militares. “É retaliação pura de grupos que, ao que tudo indica, participam e milícias. De um lado, temos as facções criminosas e, de outro, as milícias, e a população fica no meio dessa disputa por espaços de poder”.

Os 13 assassinatos registrados na última segunda-feira não fogem a essa regra. “Mataram várias pessoas na última segunda-feira, entre elas policiais militares, e a bandidagem deu sua resposta hoje (ontem), articulando uma tentativa de resgate em Americano que resultou em quase 30 mortes. O comando das facções quer mostrar que está vivo”, diz.

Para Sauma, essa é apenas a ponta do iceberg. Segundo ele, as operações que serão feitas para capturar os autores das mortes não terão um efeito direto. “Será uma pirotecnia para tentar sufocar esse início de guerra e é muito provável que mais mortes ocorram. O poder paralelo já está instalado”. O especialista garante que o governador precisa descer do palanque para enfrentar o problema. “Ou o Estado entende que política pública é coisa séria, que não pode ser discutida em palanque eleitoral, ou vamos continuar assistindo aessa carnificina”.

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